201608.12

Lembro de ter lido uma vez, há uns bons anos, uma tirinha sobre uma família saindo de férias. A viagem era longa, o filho era pequeno e ele logo ficou com vontade de ir ao banheiro. O pai não queria parar para não “perder tempo de viagem”, a mãe tentava entender o mapa e reclamava – e aquilo se estendeu por muuuito tempo até que o pai se deu por vencido e parou num posto de gasolina. O filho desceu para usar o banheiro, a mãe também (e iria comer alguma coisa) e o pai ficou emburrado no carro pensando: “da próxima vez, eu tiro férias sozinho”.

Na época eu ri muito e o achei rabugento mas, depois que cresci e arrumei a minha própria família, o entendi perfeitamente. Como cansa sair de férias com a família! Quem tem filhos pequenos sabe do que falo: a gente simplesmente não consegue descansar. Muda o cenário mas não as responsabilidades. E então decidi: “as próximas férias eu vou tirar sozinha”. E eis-me aqui, numa bela e agradável pousada em Maresias, numa rede gostosa à sombra de um coqueiro escrevendo esse relato. Mas como foi esse processo maluco?

Conversando com a família antes

Eu sempre fui muito livre nessa vida, e essa coisa de TER que ficar presa a um ambiente por obrigação – tipo, poderia fugir, mas seria execrada, sabe como é? – acabava comigo. Eu sabia disso quando me casei e quando concordei em ter filhos, mas não sabia que sairia tão caro pra mim! Meu humor mudou tanto que acharam que era uma depressão, ou crise no casamento, ou problemas no trabalho. Que nada… era eu que não estava sendo eu mesma nem um minuto do dia. Era mãe, era esposa, era funcionária, era a filha ateia de uma mãe católica… mas não era eu.

Um dia, quando cheguei no meu limite (e foi nas nossas últimas viagens de férias), sentei com meu esposo e falei que da próxima vez viajaria sozinha. Gente… CLARO que ele me criticou. Ele era super caseiro, o oposto de mim, e não me entendia. Achou que eu não amava mais nem a ele nem nossa filha. Marcou uma conversa com minha terapeuta pra conversar sobre mim e foi ela quem o fez entender o que acontecia na minha cabeça. E quando ele entendeu (depois de duas sessões), ele passou a me apoiar.

Mas não faria muita diferença, sabe… Eu já tinha reservado um quarto nessa pousada em Maresias aqui. Rsrsrsrs! Sairia com ou sem a aprovação de quem quer que fosse, mas eu precisava – precisava! – de um tempo comigo mesma e com mais ninguém. Mas, pra não dar briga, não falei dessa reserva. Deixei pra depois.

Vivendo as minhas férias

Não tenho medo de viajar sozinha, então vim com a mesma cara de pau de sempre. Cheguei sozinha, fiz meu checkin, arrumei minhas coisas e me preparei pra passar duas semanas por minha conta. Visitaria o que quisesse na hora que me desse na telha, comeria o que quisesse, passaria quanto tempo quisesse nos quiosques, nas lojas, na areia… Sem contar que finalmente conseguiria ler uns 4 livros que comprei há anos e nunca consegui nem ler a sinopse!

Acabei fazendo aula de mergulho, de surf (não levo o menor jeito), passeei de caiaque, de escuna, de jetski (desse eu gostei!), pesquei com os moradores locais, tive alergia da casquinha de siri – coisa pouca -, tomei sorvete até congelar o cérebro. Não li os quatro livros, mas li dois inteiros e uma parte do terceiro. Comprei dois maiôs novos e um monte de quinquilharias pra enfeitar a casa e uma pranchinha pra minha filha, pra quando voltarmos ao litoral, um dia.

Agora, há dois dias de voltar, estou aqui… na rede… numa pousada em Maresias… já me aprontando pra deixar o notebook de lado, abaixar o chapéu e tirar uma sonequinha reparadora após o almoço… a criatura mais feliz do mundo!…